Um pouco dos meus três dias numa zona rural da Bolívia

* Postado no Facebook dia 16 de outubro de 2015

Na quarta, pela manhã, pegamos duas conduções até a cidadeZINHA Rincón Palometas, onde a instituição tem uma casa e iríamos fazer oficinas sobre motivação, violência e sexualidade com os jovens.
Chegamos para o almoço e a cidade (ou povoado, não sei a melhor palavra) consiste em uma praça arborizada com uns banquinhos e uns brinquedos e umas 10 ruas — no máximo. Aqui moram 900 famílias, 4.000 pessoas, mas não sei onde. Logo que cheguei, vi umas marcas vermelhas no chão que pareciam sangue. Segui os rastros e meus olhos pousaram em uma vaca sem pele pendurada tipo na calha de uma casa (totalmente sem refrigeração) e várias moscas e galos e porcos andando pela rua, além de cachorros e cavalos. Confesso que fiquei horrorizada, só consegui pensar em “me tirem daqui”. Aí respirei fundo, lembrei que culturas não são superiores a outras, que estava ali para tentar contextualizar o que via e que eu que era a privilegiada que nunca tinha tido que matar pra comer ou nada parecido. Respirei fundo mais uma vez e logo me liguei em outro problema: casas de pau a pique. Obviamente, fiz a ligação com uma manchete que tinha lido no jornal pouco antes de vir, que alertava pra alta incidência de Doença de Chagas na Bolívia. Pronto, já tinha uma coisa mais relevante pra me preocupar e passei os 3 dias rastreando barbeiros e andando com o corpo melado de repelente para combater todos os muitos insetos, just in case.
No mesmo dia, de tarde, fizemos uma oficina com o pessoal de Palometas mesmo e descobrimos que muitas meninas engravidam aqui porque os jovens não podem comprar preservativo, já que a cidade toda ficaria sabendo. Se engravidam, as botam para fora de casa. Conversando com as meninas sobre seus sonhos e tudo mais, uma delas falou que preferia não fazer planos porque poderia engravidar e tudo iria por água abaixo… Fiquei triste porque não tinha muito o que falar depois de tudo que tinham me contado, é realmente uma realidade diferente e triste.
De noite, teve um festival de dança e poesia no único colégio de Palometas e nós fomos. Atividade 0% turística porque de fora da comunidade (realmente não sei como me referir) éramos só eu e a Laura. Era como uma festa junina de colégio, bem parecido mesmo. Vou botar algumas fotos para vocês verem.
No segundo dia, tive que ajudar na remoção de uma vítima de acidente de moto logo pela manhã (um cara bêbado bateu num poste, perdeu todos os dentes, ensanguentou a cidade toda, um desastre). O pior, tivemos que botar ele na caçamba de uma caminhonete sentado em uma cadeira porque não tinha hospital por perto e o cara não conseguia levantar. Na verdade, a Laura foi prestar os primeiros socorros, já que é enfermeira e não tem médicos na cidade, e sobrou pra mim ser assistente e ir passando as (poucas) coisas que os moradores “roubaram” do hospital abandonado. Vocês imaginem… (Nota: depois que escrevi isso, ficamos tristes de saber que o homem morreu, mesmo com o que tentamos fazer, mas realmente não tínhamos nenhum recurso, contávamos só umas luvas, soro fisiológico e umas toalhas… o crânio tava exposto e ele sangrava muito — mãe, obviamente não encostei no sangue, fique tranquila).
Também tivemos que pedir carona na estrada e cogitamos ir em um trator, mas achamos que era contar demais com a sorte, mesmo na Bolívia.
A comida foi até tranquila porque eu comia sempre a opção que não era carne de porco (frango ou sopa). Não sabia por que, mas tinha uma ideia fixa de que não podia comer porco aqui. As pessoas da cidade foram muito amáveis e se prepararam para fazer comidas que a gente gostava (foram informados antes de que gostávamos de arroz com frango). Eles até fizeram uma fornada de pão especial para a nossa chegada (fazem pão a cada dois dias)!

O que mais me emocionou foi que, no último dia, tínhamos uma oficina até 22hrs (decidimos fazer uma extra de sexualidade) e não conseguiríamos jantar, então compramos umas empanadas. A moça da única pensão daqui, que é mais como uma casa que vende comida, veio até nossa casa perguntar se não iríamos jantar. Explicamos da oficina e ela voltou um tempo depois com duas sacolinhas de mercado com potes de frango, arroz e batata frita. Tudo muito simples, mas me emocionou muito. Uma moça com quem tínhamos falado uma vez se preocupou com nossa comida e nem queria nos cobrar (óbvio que pagamos). Ela perguntou se tínhamos achado a cidade bonita e pediu para voltarmos mais vezes. Muito legal ver que, mesmo com todas as dificuldades, as pessoas abrem seus corações para outras. Foi uma experiência de vida incrível.

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